Era um dia de chuva e todos estavam recolhidos
em suas caixas, jaulas e camarins. A chuva podia acabar
o circo de papel de uma hora para outra. Todos tinham
medo, ou então respeito pela chuva. Foi num desses
dias, que apareceu no circo um boneco chamado Xavier.
Todo de papel, raquítico, um nariz enorme e pretinho
feito carvão. Trazia uma cadeira - sua única bagagem.
Entrou para passar a chuva. Quando parou de chover
ele já sabia que ali era um circo de bonecos de papel.
É aqui mesmo que vou ficar, decidiu. Antes ele tinha
pertencido a uma menina que só gostava de bonecos
de plástico. Um dia foi jogado no lixo, junto com
uma cadeira de madeira que também tinha sido trocada
por uma cadeira de plástico. Por sorte não foi parar
no caminhão de lixo.
Quando se deu conta estava em frente ao dono do circo,
sendo interrogado. Era o professor Tinoco, um boneco
já muito velho, com muita sabedoria e profundo conhecedor
das artes circenses. Foi uma longa conversa. Quantas
perguntas o professor fazia!
O Xavier ficou muito atrapalhado mas foi respondendo
tudo na ponta da língua. A pior pergunta foi Ter que
responder se ele sabia o que era um circo. Isto ele
não sabia ao certo. Mas sabia que queria ficar no
circo. Ficou mais atrapalhado quando o professor perguntou
o que ele sabia fazer, qual era a sua arte.
Todos no circo são artistas, disse o professor. -
Eu nem sei o que é arte, pensou Xavier. Como não sabia
responder foi ficando com frio e medo. Foi encolhendo
até ficar bem miudinho. Num pulo certeiro e rápido
entrou embaixo da cadeira e puft..., sumiu.
O professor desistiu, saiu, foi cuidar da vida. Vez
ou outra passava ali, olhava, nada do Xavier, só via
a cadeira. Um dia resolveu averiguar com mais atenção
onde se encontrava mesmo o boneco. Acocorou-se, olhou
detalhadamente embaixo do assento da cadeira e viu!
O Xavier estava ali mesmo, só que não tinha corpo,
era uma sombra. Tinha a cor do Xavier, os olhos, o
nariz, etc. mas era uma sombra. Tentou fazer algumas
perguntas. Nada, não tinha voz. O professor achou
normal, decidiu deixar a cadeira ali mesmo até o Xavier
voltar a ser um boneco. Passaram alguns dias e nada
aconteceu. A cadeira permaneceu ali e o Xavier continuava
sendo uma sombra.
Tanto tempo assim como sombra, dificilmente voltará
a ser boneco, pensava o professor. Tirou a cadeira
do meio do caminho, onde se encontrava. Colocou-a
dentro do depósito de jornais velhos. Resolveu esquecer
o Xavier e livrou-se até do remorso, por ter feito
tantas perguntas descabidas as um bonequinho sem eira
nem beira. Tudo tomou seu rumo e o professor foi cuidar
do circo.
O Xavier virado sombra, quando foi colocado no depósito
do lixo voltou a ser um boneco. Forma embora o medo
e frio. Os jornais eram iguais a cobertores, aqueciam.
Pulou em cima da cadeira e de um pequeno buraco que
existia naquele depósito passou a olhar tudo que acontecia
por ali. Pela experiência, foi descobrindo o que era
um circo. Quando alguém lhe perguntasse sobre isso,
ele já saberia responder.
Dizia para si mesmo: é o belo e o trágico porque me
faz chorar e rir. De tanto viver ali dentro, misturado
com jornais e a cadeira, já não sabia se era jornal
ou cadeira, ou se tudo ao mesmo tempo. Sua vida era
subir e descer. As vezes ficava escondido dentro de
um jornal. Mas quando estava neste esconderijo tinha
medo e saia rápido.
Passou tanto tempo que a cadeira foi ficando velha,
estava caindo aos pedaços. O Xavier não sabia como
resolver aquela situação, sua cadeira não podia acabar.
E se o pessoal do circo aparecesse, como ele iria
virar uma sombra? Passou a rasgar os jornais e cobrir
a cadeira. Assim a cadeira do Xavier foi ficando novinha
em folha, coberta com pedacinhos de jornais. Com esta
experiência de rasgar jornais e cobrir a cadeira,
o Xavier foi aprendendo que ali tinha muitas histórias.
Foi conhecendo as letras e de tanto ouvir as palavras
do circo, ele foi juntando as letras, descobrindo
os sons, formando palavras e fazendo as histórias.
A vida do Xavier ficava cada vez mais alegre porque
havia as histórias. Descobriu também a tristeza dentro
das histórias, mas percebeu que a cada final acabavam
os problemas e tudo era resolvido. Num certo dia,
ele ficou comparando a sua vida com a vida do circo.
Percebeu que ele estava ficando igualzinho ao circo:
ora triste, ora feliz. Ficava procurando no meio daquele
amontoado de jornais uma ou outra forma de vida, rasgou
mais jornais, cobriu a cadeira de várias formas, as
histórias tinham sempre o mesmo modelo. Queria uma
história que fosse só de alegria. Não encontrou. Mas
o que ele sabia era que estava igualzinho ao circo.
E neste dia ele teve a certeza que já era mesmo do
circo. Resolveu dar um daqueles pulinhos e puft...
estava em cima da borda do depósito de jornais. Puxou
a cadeira, ajustou-a e ficou pendurado feito um macaco.
Pulava de um lado para outro. Ninguém apareceu, por
um tempo. De tanto pular, chamou a atenção de uns
anões que iam passando. Daí em diante, não parou de
juntar gente, bonecos, até chegar o professor que
explicou aquela situação. O Xavier muito satisfeito
com o que o professor falou sobre ele, começou a mostrar
suas histórias. - Mas isto são histórias de circo,
onde você aprendeu? Perguntaram.
O Xavier riu e respondeu: Eu fui fazendo minhas histórias.
Ninguém acreditou. O professor explicou que era verdade,
que ele tinha visto o Xavier antes e este não tinha
nada para contar. Mal sabia falar, disse o professor.
Então o Xavier perguntou: Posso ficar no circo?
Não,
não existe mais lugar, o circo está completo, responderam
em coro.
O Xavier quase vira uma sombra, de medo daquela resposta.
Não vacilou. O medo foi muito rápido. Ele sabia que
já era do circo.
Falou animado: - O meu lugar é aqui no meio dos jornais.
O professor tomou a palavra e disse: É claro que o
Xavier já é do circo. É só olhar para ele e ver a
coragem estampada em seu rosto. Ele aprendeu a enfrentar
perigos e riscos e deixou o medo do outro lado da
empanada. E assim começou a vida de artista do Xavier.
Sua arte era procurar as letras, formar as palavras,
fazer as histórias e contá-las para toda a gente que
ia assistir aos espetáculos.
Fim .