CIRCO DE PAPEL
 
 
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A CADEIRA
MÁGICA DE XAVIER

Ismine Lima

Era um dia de chuva e todos estavam recolhidos em suas caixas, jaulas e camarins. A chuva podia acabar o circo de papel de uma hora para outra. Todos tinham medo, ou então respeito pela chuva. Foi num desses dias, que apareceu no circo um boneco chamado Xavier.

Todo de papel, raquítico, um nariz enorme e pretinho feito carvão. Trazia uma cadeira - sua única bagagem. Entrou para passar a chuva. Quando parou de chover ele já sabia que ali era um circo de bonecos de papel.

É aqui mesmo que vou ficar, decidiu. Antes ele tinha pertencido a uma menina que só gostava de bonecos de plástico. Um dia foi jogado no lixo, junto com uma cadeira de madeira que também tinha sido trocada por uma cadeira de plástico. Por sorte não foi parar no caminhão de lixo.

Quando se deu conta estava em frente ao dono do circo, sendo interrogado. Era o professor Tinoco, um boneco já muito velho, com muita sabedoria e profundo conhecedor das artes circenses. Foi uma longa conversa. Quantas perguntas o professor fazia!

O Xavier ficou muito atrapalhado mas foi respondendo tudo na ponta da língua. A pior pergunta foi Ter que responder se ele sabia o que era um circo. Isto ele não sabia ao certo. Mas sabia que queria ficar no circo. Ficou mais atrapalhado quando o professor perguntou o que ele sabia fazer, qual era a sua arte.

Todos no circo são artistas, disse o professor. - Eu nem sei o que é arte, pensou Xavier. Como não sabia responder foi ficando com frio e medo. Foi encolhendo até ficar bem miudinho. Num pulo certeiro e rápido entrou embaixo da cadeira e puft..., sumiu.

O professor desistiu, saiu, foi cuidar da vida. Vez ou outra passava ali, olhava, nada do Xavier, só via a cadeira. Um dia resolveu averiguar com mais atenção onde se encontrava mesmo o boneco. Acocorou-se, olhou detalhadamente embaixo do assento da cadeira e viu!

O Xavier estava ali mesmo, só que não tinha corpo, era uma sombra. Tinha a cor do Xavier, os olhos, o nariz, etc. mas era uma sombra. Tentou fazer algumas perguntas. Nada, não tinha voz. O professor achou normal, decidiu deixar a cadeira ali mesmo até o Xavier voltar a ser um boneco. Passaram alguns dias e nada aconteceu. A cadeira permaneceu ali e o Xavier continuava sendo uma sombra.

Tanto tempo assim como sombra, dificilmente voltará a ser boneco, pensava o professor. Tirou a cadeira do meio do caminho, onde se encontrava. Colocou-a dentro do depósito de jornais velhos. Resolveu esquecer o Xavier e livrou-se até do remorso, por ter feito tantas perguntas descabidas as um bonequinho sem eira nem beira. Tudo tomou seu rumo e o professor foi cuidar do circo.

O Xavier virado sombra, quando foi colocado no depósito do lixo voltou a ser um boneco. Forma embora o medo e frio. Os jornais eram iguais a cobertores, aqueciam. Pulou em cima da cadeira e de um pequeno buraco que existia naquele depósito passou a olhar tudo que acontecia por ali. Pela experiência, foi descobrindo o que era um circo. Quando alguém lhe perguntasse sobre isso, ele já saberia responder.

Dizia para si mesmo: é o belo e o trágico porque me faz chorar e rir. De tanto viver ali dentro, misturado com jornais e a cadeira, já não sabia se era jornal ou cadeira, ou se tudo ao mesmo tempo. Sua vida era subir e descer. As vezes ficava escondido dentro de um jornal. Mas quando estava neste esconderijo tinha medo e saia rápido.

Passou tanto tempo que a cadeira foi ficando velha, estava caindo aos pedaços. O Xavier não sabia como resolver aquela situação, sua cadeira não podia acabar. E se o pessoal do circo aparecesse, como ele iria virar uma sombra? Passou a rasgar os jornais e cobrir a cadeira. Assim a cadeira do Xavier foi ficando novinha em folha, coberta com pedacinhos de jornais. Com esta experiência de rasgar jornais e cobrir a cadeira, o Xavier foi aprendendo que ali tinha muitas histórias. Foi conhecendo as letras e de tanto ouvir as palavras do circo, ele foi juntando as letras, descobrindo os sons, formando palavras e fazendo as histórias.

A vida do Xavier ficava cada vez mais alegre porque havia as histórias. Descobriu também a tristeza dentro das histórias, mas percebeu que a cada final acabavam os problemas e tudo era resolvido. Num certo dia, ele ficou comparando a sua vida com a vida do circo. Percebeu que ele estava ficando igualzinho ao circo: ora triste, ora feliz. Ficava procurando no meio daquele amontoado de jornais uma ou outra forma de vida, rasgou mais jornais, cobriu a cadeira de várias formas, as histórias tinham sempre o mesmo modelo. Queria uma história que fosse só de alegria. Não encontrou. Mas o que ele sabia era que estava igualzinho ao circo.

E neste dia ele teve a certeza que já era mesmo do circo. Resolveu dar um daqueles pulinhos e puft... estava em cima da borda do depósito de jornais. Puxou a cadeira, ajustou-a e ficou pendurado feito um macaco. Pulava de um lado para outro. Ninguém apareceu, por um tempo. De tanto pular, chamou a atenção de uns anões que iam passando. Daí em diante, não parou de juntar gente, bonecos, até chegar o professor que explicou aquela situação. O Xavier muito satisfeito com o que o professor falou sobre ele, começou a mostrar suas histórias. - Mas isto são histórias de circo, onde você aprendeu? Perguntaram.

O Xavier riu e respondeu: Eu fui fazendo minhas histórias. Ninguém acreditou. O professor explicou que era verdade, que ele tinha visto o Xavier antes e este não tinha nada para contar. Mal sabia falar, disse o professor.

Então o Xavier perguntou: Posso ficar no circo?
Não, não existe mais lugar, o circo está completo, responderam em coro.

O Xavier quase vira uma sombra, de medo daquela resposta. Não vacilou. O medo foi muito rápido. Ele sabia que já era do circo.

Falou animado: - O meu lugar é aqui no meio dos jornais.
O professor tomou a palavra e disse: É claro que o Xavier já é do circo. É só olhar para ele e ver a coragem estampada em seu rosto. Ele aprendeu a enfrentar perigos e riscos e deixou o medo do outro lado da empanada. E assim começou a vida de artista do Xavier. Sua arte era procurar as letras, formar as palavras, fazer as histórias e contá-las para toda a gente que ia assistir aos espetáculos.

Fim .































































CIRCO DE PAPEL - ISMINE LIMA
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